Protocolos / GOOSE e Sampled Values

GOOSE vs Sampled Values: diferenças, tráfego, sincronismo e aplicação no Process Bus

Compare IEC 61850 GOOSE e Sampled Values: evento versus amostragem contínua, multicast, banda, prioridade, sincronismo e testes em redes de subestação.

8 min de leituraPublicado em 25/08/2026
Ilustração técnica autoral para GOOSE vs Sampled Values: diferenças, tráfego, sincronismo e aplicação no Process Bus, destacando o fluxo e os elementos centrais do assunto.
Ilustração técnica autoral do Portal da Automação, criada para o foco específico deste artigo.

GOOSE e Sampled Values: o que olhar no quadro Ethernet

Diagrama do quadro Ethernet para GOOSE e Sampled Values com multicast, VLAN, PCP, EtherType, APPID e APDU.
Diagrama próprio do Portal da Automação. GOOSE e SV trafegam diretamente em Ethernet e dependem fortemente da engenharia da LAN.

Como ler esta figura

MAC destino

Normalmente multicast para distribuir o fluxo a assinantes.

Na implementação: Valide grupo multicast, filtragem no switch e se as portas dos assinantes realmente recebem o tráfego.

VLAN / PCP

802.1Q carrega VLAN ID e prioridade de usuário, permitindo segmentação e tratamento de fila.

Na implementação: PCP não cria banda; apenas ajuda o switch a decidir prioridade quando há concorrência.

EtherType

Identifica GOOSE (0x88B8) ou Sampled Values (0x88BA).

Na implementação: Essa distinção torna simples filtrar e comprovar se o fluxo certo está no enlace.

APPID

Identifica a aplicação/instância do fluxo.

Na implementação: Compare APPID com SCL e com o assinante; duplicidade ou divergência dificulta interoperabilidade e diagnóstico.

APDU

No GOOSE contém estado, sequência, dataset e metadados; em SV contém amostras e metadados do stream.

Na implementação: No GOOSE acompanhe stNum/sqNum/ConfRev; em SV acompanhe smpCnt/smpSynch/svID e continuidade.

FCS e contadores da porta

Protegem o quadro Ethernet e evidenciam defeitos físicos ou congestionamento.

Na implementação: Antes de acusar o IED, cheque CRC, drops, queue discards e erros da interface dos switches.

IEC 61850: o mapa mental antes dos parâmetros

Diagrama comparando MMS, GOOSE, Sampled Values e PTP na arquitetura IEC 61850.
Diagrama próprio do Portal da Automação. A família IEC 61850 combina modelo de dados, serviços, engenharia e diferentes mapeamentos de comunicação.

Como ler esta figura

MMS

Atende serviços cliente-servidor como leitura, escrita, reports e controles mapeados pela IEC 61850-8-1.

Na implementação: Valide associação, modelo do IED, datasets, report control blocks e control model.

GOOSE

Entrega eventos rápidos peer-to-peer por multicast Ethernet.

Na implementação: Valide SCL, dataset, GoCBRef, APPID, MAC, VLAN/PCP, stNum, sqNum e ConfRev.

Sampled Values

Distribui amostras digitalizadas do processo em fluxo contínuo.

Na implementação: Valide taxa de amostragem, svID, smpCnt, smpSynch, banda, prioridade e sincronismo.

PTP

Fornece referência temporal de alta precisão usando o perfil IEC/IEEE 61850-9-3 quando aplicável.

Na implementação: Observe grandmaster, BMCA, clockClass, priority, offset, path delay, boundary/transparent clocks e holdover.

SCL

É linguagem XML de engenharia/configuração, não um protocolo de tráfego do processo.

Na implementação: Controle versões ICD/IID/CID/SCD/SSD e valide consistência entre arquivo, IED e configuração de switches/ferramentas.

GOOSE — stNum/sqNum/ConfRev/APPID

CampoFunçãoAssinatura normalSintoma útil
APPIDIdentifica o fluxo de aplicação no frameConstante para o fluxo configuradoAPPID inesperado pode indicar assinatura/publicação errada.
stNumNúmero do estado do datasetIncrementa quando o estado mudaNão muda apesar do processo mudar → publicação/lógica/dataset.
sqNumSequência de retransmissões do mesmo estadoReinicia no novo estado e cresce nas repetiçõesSaltos/ausência ajudam a identificar perda ou captura incompleta.
ConfRevRevisão da configuraçãoIgual à revisão esperada pelo subscriberMismatch pode invalidar interoperabilidade apesar de Ethernet OK.
TimeAllowedToLiveValidade temporal anunciadaMaior que o próximo intervalo esperadoExpiração causa subscriber considerar publisher indisponível.

Evento e fluxo contínuo não são a mesma coisa

GOOSE e Sampled Values usam Ethernet multicast no ecossistema IEC 61850, mas carregam informações de naturezas muito diferentes. GOOSE é orientado a mudanças de estado e eventos: trip, pickup, bloqueio, permissivo, posição e sinais lógicos. Sampled Values transporta amostras digitalizadas de grandezas analógicas, como corrente e tensão, em fluxo contínuo. Essa diferença muda banda, sincronismo, comportamento esperado, teste e impacto de uma falha.

Em GOOSE, o aumento temporário de tráfego ocorre quando o estado muda e a mensagem é retransmitida rapidamente, depois o intervalo cresce. Em SV, frames continuam sendo enviados na taxa prevista mesmo sem mudança no processo. Por isso, dimensionar uma rede Process Bus exige contabilizar o fluxo contínuo de cada stream SV, enquanto GOOSE exige atenção especial à latência e às rajadas de retransmissão após eventos simultâneos.

  • GOOSE: estado/evento e retransmissão adaptativa.
  • SV: amostras contínuas de grandezas analógicas.
  • Ambos podem usar VLAN e prioridade, mas com perfis de tráfego diferentes.

Publicadores, assinantes e datasets

Um GOOSE Control Block referencia um dataset com atributos de dados publicados pelo IED. O assinante é configurado para consumir aquele fluxo e associar os membros do dataset às entradas internas de lógica. Alterações de configuração podem mudar ConfRev e precisam ser coerentes entre engenharia e IEDs. O diagnóstico deve confirmar GoCBRef, DatSet, APPID, MAC multicast, VLAN, stNum e sqNum.

Em SV, o publicador é frequentemente uma Merging Unit ou IED com função equivalente, e o assinante pode ser um relé de proteção, medidor ou dispositivo de aquisição. O stream contém amostras identificadas e ordenadas; a aplicação depende de taxa, sincronismo e associação correta das grandezas. Trocar apenas um identificador ou escala pode produzir medições plausíveis, porém erradas, o que torna comissionamento metrológico indispensável.

  • Verifique identidade do stream antes de medir desempenho.
  • Valide escala e associação de corrente/tensão no SV.
  • Em GOOSE, valide dataset e revisão de configuração.

Sincronismo: crítico para SV, importante para a engenharia completa

GOOSE não precisa de sincronismo de fase para representar um estado lógico. O receptor precisa reconhecer sequência, validade temporal e mudança de estado. Já aplicações de SV que combinam amostras de diferentes Merging Units dependem de uma referência temporal consistente. Processos como proteção diferencial, barramento e medição sincronizada podem exigir que amostras sejam alinhadas com precisão muito maior que a necessária para SOE convencional.

Por isso PTP, especialmente o perfil de potência IEC/IEEE 61850-9-3, aparece frequentemente no mesmo projeto que SV. A rede passa a transportar simultaneamente tráfego de processo e sincronismo. Grandmaster, boundary clocks, transparent clocks e qualidade do relógio precisam ser monitorados. Uma rede pode continuar encaminhando SV perfeitamente enquanto o tempo degrada; sem alarme de qualidade temporal, a falha fica invisível até afetar a aplicação.

  • Monitore estado e qualidade de PTP, não apenas link Ethernet.
  • Teste perda de referência e holdover do relógio.
  • Correlacione qualidade temporal com comportamento do assinante SV.

Banda, QoS e redundância

GOOSE costuma consumir pouca banda média, mas seu requisito dominante é latência e previsibilidade em evento. SV pode representar uma parcela significativa da utilização de links, especialmente com vários streams e taxas elevadas. A engenharia deve calcular tráfego por porta, não apenas por switch, considerando replicação multicast, trunks, PRP/HSR quando utilizados e caminhos de espelhamento para diagnóstico.

VLAN e PCP ajudam a separar e priorizar classes de tráfego, mas não substituem capacidade. Prioridade não cria banda; ela define quem espera quando existe contenção. Em redes críticas, teste saturação controlada, failover, perda de link e recuperação. PRP e HSR podem fornecer redundância sem tempo de reconvergência perceptível para a aplicação, mas duplicam tráfego em partes da arquitetura e exigem análise correta do comportamento dos nós.

  • Calcule utilização no pior caso por enlace.
  • Não use QoS para esconder sobrecarga estrutural.
  • Teste redundância com streams reais de GOOSE e SV.

Como analisar no Wireshark

Para GOOSE, observe stNum mudando quando o estado do dataset muda e sqNum evoluindo nas retransmissões do mesmo estado. Verifique TimeAllowedToLive, APPID, VLAN e ConfRev. Intervalos anormais podem indicar congestionamento, perda ou configuração de retransmissão diferente. Compare sempre com a lógica do IED, pois um GOOSE recebido pode ser descartado por configuração incompatível.

Para SV, observe sequência de amostras, identificador do stream, contador de amostras, sincronismo indicado e regularidade temporal. Uma captura em porta SPAN pode perder frames por limitação do próprio espelhamento; para medir perda em Process Bus carregado, TAP ou captura dimensionada para line rate é preferível. O objetivo é separar perda real da rede de perda da ferramenta de captura.

  • Use captura com timestamp de alta qualidade quando medir jitter.
  • Evite SPAN sobrecarregado para afirmar perda de SV.
  • Preserve PCAP e configuração SCL do mesmo teste.

Comissionamento conjunto no Process Bus

Um teste completo deve começar com baseline: medir utilização por VLAN, taxa de frames por stream, latência de GOOSE e estado do PTP. Depois aplique estímulos reais ou de simulador para verificar mudança de stNum em GOOSE e coerência das amostras SV. A seguir provoque falhas de link e de switch dentro de procedimento seguro, verificando se PRP/HSR ou outra redundância mantém os fluxos dentro dos limites do projeto.

Também vale testar erros de engenharia controlados em ambiente de laboratório: ConfRev diferente, stream SV incorreto, perda de sincronismo ou VLAN errada. O objetivo é conhecer como cada IED sinaliza a condição. Alguns geram alarmes claros; outros apenas deixam de usar os dados. Esses testes criam assinaturas de falha que ajudam muito durante troubleshooting futuro e devem entrar no relatório de comissionamento.

Como regra de aceitação, associe cada stream a um requisito mensurável: latência máxima, taxa esperada, prioridade, caminho redundante, origem do tempo e comportamento quando a qualidade degrada. Essa matriz ajuda a evitar testes genéricos de link e transforma o comissionamento em verificação direta da função elétrica.

  • Registre baseline de banda e latência.
  • Teste falhas de rede e de tempo separadamente.
  • Documente alarmes esperados para erro de configuração.

Referências técnicas

As explicações do Portal são autorais. Use as fontes oficiais e materiais públicos de implementação abaixo para confirmar edição, escopo, capacidades e comportamento do equipamento utilizado no seu projeto.

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